Conferência “A hepatite C em utilizadores de drogas: do rastreio à referenciação” conclui

Portugal foi pioneiro em garantir o acesso aos medicamentos para todos os doentes. No entanto, para controlar a infeção, é essencial prevenir, diagnosticar precocemente, garantir que as pessoas diagnositicadas acedem rapidamente aos cuidados de saúde e ao tratamento. Importa fazer este caminho desde a primeira hora.

O responsável pelo programa de investigação clínica sobre hepatites virais no Kirby Institute, em Sidney, e fundador do serviço de hepatites virais no Hospital de St. Vincent, o médico Greg Dore, esteve no Porto para partilhar o modelo de acesso à saúde na hepatite C implementado na Austrália e levantar algumas questões sobre a metodologia implementada em Portugal.

Chefe de um dos serviços hospitalares líderes no tratamento da hepatite C, com particular foco nos utilizadores de drogas e nos sem-abrigo, Greg Dore partilhou com especialistas nacionais as boas práticas da Austrália que fazem desse país uma referência nos modelos de acesso à saúde na hepatite.
As grande conclusões das conferência podem ser resumidas em três pontos:
·         Os médicos de clínica geral atualmente não podem confirmar o diagnóstico e é essencial que tal aconteça
o   Para isso têm de ter acesso ao pedido da carga viral algo que não acontece nos dias de hoje
·         É essencial garantir um acesso mais rápido do diagnóstico ao tratamento
·         As populações mais vulneráveis (prisões e utilizadores de drogas) precisam de uma nova resposta dos cuidados de saúde
o   É essencial que o diagnóstico, acompanhamento e tratamento possa ser feito junto destas populações em vez das mesmas terem de se deslocar aos hospitais
Na Austrália, o programa de eliminação da hepatite C não passa apenas pelos especialistas de gastro ou infeciologistas. Passa pelos médicos de família a quem foi dada formação e treino para diagnóstico, acompanhamento de doentes que sofram com esta doença e prescrição da medicação recomendada.
 
Em Portugal a realidade é outra. Há uma separação entre o papel do médico de família e dos especialistas, sendo que o clínico geral nem pode pedir testes específicos que confirmam a doença, mesmo depois de uma análise positiva a anticorpos do vírus da hepatite C.

Segundo Greg Dore é necessário realizar alterações de grande impacto na moldura regulatória em Portugal com vista a facilitar a prescrição, não apenas dos exames necessários, mas também da terapêutica que deverá ser iniciada com a maior brevidade. E para isso o papel dos médicos não especialistas é fundamental. Isto será possível investindo na formação médica.

Para além disso, o modelo português é muito moroso desde o diagnóstico até ao início do tratamento, desde que o médico prescreve até que a medicação chegue ao doente. Até o doente ter acesso aos medicamentos chegam a passar vários meses, como referiu Luís Mendão do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamento).

Para que se consiga controlar uma epidemia instalada através do acesso à cura tem que se começar ousadamente. É essencial uma cobertura alargada e rápida do acesso cura” Um cobertura reduzida compromete o impacto a nível de saúde pública”, disse Greg Dore. Para este especialista, rastrear sem acesso ao tratamento não faz sentido, “o ideal seria diagnosticar hoje e ter acesso ao tratamento nesse mesmo dia”.
Outra questão relevante é a necessidade de identificar as populações de risco (como a população prisional e pessoas que consomem drogas injetáveis) e ir ao seu encontro.

Aumentar o rastreio e promover uma referenciação rápida para cuidados de saúde adequados é essencial se queremos de facto eliminar a Hepatite C como problema de saúde pública, e a participação das comunidades mais atingidas pela epidemia tem um papel fundamental na resposta, quer ao nível da literacia, quer do desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção.

O meio prisional continua a ser uma das grandes lacunas em termos de acesso a tratamento em Portugal. Sobre este tema Isabel Aldir, Diretora do Programa Nacional para as  Hepatites Virais, VIH/Sida e Tuberculose, referiu que está a ser preparado um despacho - que se espera que seja publicado ainda durante o mês de julho - entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Justiça sobre os rastreios e o acesso aos cuidados de saúde na população prisional.

“Contudo, não podemos pensar apenas em tratamento quando falamos em hepatite C. Temos de trabalhar um pacote integrado que trabalhe ao nível da prevenção e, apesar de termos tido um programa bem-sucedido até aqui, temos que o alargar a outras populações onde ainda não conseguimos chegar”, concluiu Isabel Aldir.

No encerramento da Conferência e debate, Luis Mendão, responsável do GAT e promotor do evento referiu: “Se não conseguirmos manter a visão de tratar todos, tratar bem e sermos capazes de pagar a fatura, todos vamos perder neste trabalho.”

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