Projeto Internacional DESAFIO quer democratizar o acesso aos serviços de águas e saneamento nas regiões mais pobres do Brasil e da América Latina

Os habitantes de Sítio Cruz, no Ceará, Brasil, vão beneficiar das soluções que estão a ser delineadas no âmbito de um ambicioso projeto internacional que visa contribuir para democratizar o acesso das populações mais carenciadas de países em desenvolvimento aos serviços de água e saneamento.

O projeto DESAFIO - Democratisation of Water and Sanitation Governance by Means of Socio-Technical Innovation, que envolve investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (UC) coordenados por Maria da Conceição Cunha, aposta em métodos de pesquisa inovadores, reunindo cientistas de diversas áreas de conhecimento (engenharia, biologia, sociologia, economia, arquitetura, antropologia e outras), para estruturar intervenções sociotécnicas pioneiras capazes de fornecer ferramentas essenciais para combater a desigualdade social no acesso a água e saneamento.

Além da equipa de Coimbra, participam no estudo liderado pela Universidade de Newcastle (Reino Unido), as Universidades Federais do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Pernambuco (Brasil), de Valle (Colômbia) e Nacional de Rosario (Argentina).

Financiado pela União Europeia em um milhão de euros, a investigação iniciada há um ano inclui estudos de caso em comunidades do Brasil (3), da Colômbia (1) e da Argentina (1), e trabalho de campo junto de populações com graves dificuldades socioeconómicas. Ainda recentemente, os investigadores realizaram reuniões com autoridades locais e moradores da favela da Mustardinha, no Recife, com 70 mil habitantes.

Estes encontros são essenciais porque, explica Maria da Conceição Cunha, «a conceção de estratégias e intervenções práticas que implicam profundas mudanças socioculturais, sobretudo nas populações vulneráveis, exige o envolvimento de todos os atores. As soluções técnicas altamente sofisticadas, só por si, não resolvem o problema do acesso aos serviços de águas. Temos de perceber as várias dimensões desta questão. Por isso, o DESAFIO parte da premissa de que, para obter sucesso no combate a um problema tão complexo de desigualdade social estrutural, considerado o maior desafio do Brasil e da América Latina no Século XXI, é necessário encontrar formas de intervir inovadoras».

Reconhecendo que a equipa está perante um DESAFIO gigantesco, a especialista em gestão de recursos hídricos da UC salienta que «não vamos ser normativos, vamos sim transmitir orientações para intervenções futuras, estabelecendo metodologias de ação e gestão integradas. Contribuir para se alcançar os Objetivos do Desenvolvimento do Milénio (ex: reduzir para metade a população que não tem acesso a água potável) constitui também uma preocupação. Os relatórios internacionais (especialmente das Nações Unidas) mostram que 11 por cento da população mundial está privada de água potável, mas em algumas zonas a percentagem sobe aos 60%. Em relação ao saneamento, a situação é ainda mais grave- 35% da população mundial não tem acesso, mas há regiões onde a percentagem é de 90%».

Atendendo às populações-alvo do estudo, o projeto DESAFIO, estruturado para fornecer orientações em todas as fases do processo de abastecimento de serviços básicos de água e saneamento (diagnóstico, conceção, implementação e validação), vai apostar em soluções que possam ser implementadas em contextos socioeconómicos e culturais distintos e que tenham em conta questões como o baixo custo de manutenção, eficiência energética, qualidade da água, reciclagem, práticas de higiene e mudanças de comportamento.

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