O persistente mito da água com limão em jejum

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Luís Cristino

Nutricionista, Clínica Central da Areosa, parceira do Fitness Hut - Grupo ViVaGym

Número de cédula: 3994N

Nutrição e Pseudociência:

Nos últimos anos, a água com limão em jejum passou a ocupar um lugar mediático na informação (ou, mais concretamente, na desinformação) na área da saúde, tornando-se uma tendência na área da perda de peso. Esta exposição pública deve-se à sua divulgação associada a “dietas da moda” e por parte de personalidades famosas da área da saúde e influencers do fitness e da nutrição, classificando-a como algo “milagroso”. São-lhe atribuídas alegações relativas à perda de peso e de melhorias no estado geral de saúde que apresentam, na sua maioria, elevada carência científica, ou até mesmo sem apresentarem qualquer tipo evidência sólida.

Em primeiro lugar, e antes de explicar o hipotético efeito potenciador da perda de peso, é necessário clarificar o princípio base pode detrás deste processo. Quando falamos em dietas para perda de peso, existe um pressuposto geral que tem de estar sempre garantido: a ingestão energética terá que ser menor que as necessidades energéticas diárias. Assim, uma dieta em que o objetivo seja o emagrecimento terá por base este princípio, inclua ou não a ingestão de água com limão em jejum, pelo que a perda de peso acontece pela diminuição da ingestão de macronutrientes, e consequentemente de energia, e não pelo consumo desta bebida. Sendo que, a ingestão de água com limão em jejum não promove diferença na perda de peso quando comparada com a não ingestão da mesma.
 
Outra das principais alegações do consumo de água com limão em jejum é o seu efeito no processo de desintoxicação do organismo. A evidência científica à data não suporta a teoria que a ingestão desta bebida, assim como qualquer outro produto aclamado de “detox”, promova um aumento do processo de eliminação das toxinas pelo organismo levando, consequentemente, a ganhos na saúde. O processo de eliminação de toxinas do organismo é realizado essencialmente pelo fígado e pelos rins. O funcionamento destes mecanismos depende fundamentalmente de uma dieta equilibrada que forneça os nutrientes necessários para o seu correto e normal funcionamento. Pelo que não será nenhum alimento ou suplemento que irão aumentar a capacidade de “desintoxicar” o organismo. Processos de desintoxicação clinicamente assistidos existem e podem ser necessários em situações especificas, como é o exemplo no caso do consumo excessivo e tóxico de bebidas alcoólicas ou fármacos.
 
Quando é sugerido o consumo da água com limão alegando o seu teor em vitamina C, não será certamente com algumas gotas como muitas vezes recomendado, mas sim aproveitando o limão inteiro. Sendo que relativamente ao consumo de vitamina C, e contrariamente ao, muitas vezes referido não existe evidência sustentada que indique que leve a uma redução da frequência de constipações.
 
O uso do sumo de limão pode ser uma estratégia para conferir sabor à água aumentando a sua ingestão e consequente hidratação do organismo, pelo que não apresenta maior efeito quando comparado com a ingestão de água natural. No entanto, a evidência científica até à data não sustenta as alegações supramencionadas, pelo que as alegações sobre o consumo de água com limão em jejum devem ser analisadas com prudência e cautela.
Por fim, o consumo de limão, como de qualquer outra fruta, integrado num padrão alimentar saudável, não trará, certamente, prejuízos para a saúde em indivíduos saudáveis, à exceção do efeito erosivo no esmalte dentário e do possível desconforto que algumas pessoas com problemas gastroesofágicos possam sentir.
 

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