Violência e desigualdade persistem em Portugal: quase metade das mulheres já sofreu algum tipo de violência

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  • A nota “Género e Violência em Portugal: Um Retrato da Desigualdade”, complemento ao relatório Portugal, Balanço Social 2025, analisa a prevalência e a gravidade da violência de género no país.
  • O estudo, desenvolvido pela ”Fundação la Caixa”, o BPI e a Nova SBE, revela que 46,8% das mulheres e 42,6% dos homens já foram vítimas de algum tipo de violência ao longo da vida.
  • A violência na intimidade é mais frequente entre as mulheres, afetando 22,5%, face a 17,1% dos homens. A violência sexual também afeta desproporcionalmente as mulheres, com 6,4% das mulheres e 2,2% dos homens a declararem ter sido vítimas;
  • Apenas 65,3% das vítimas reportam os casos de violência, na maioria das vezes a familiares e amigos, e raramente a instituições.
  • Mais de 23% das mulheres sofreram assédio persistente e 12,3% assédio sexual no trabalho.
 
Carcavelos, 20 de novembro de 2025 – A Fundação ”la Caixa”, o BPI e a Nova SBE, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, lançam a nota complementar “Género e Violência em Portugal: Um Retrato da Desigualdade” que integra o relatório anual “Portugal, Balanço Social 2025”, da autoria de Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, João Fanha e Miguel Fonseca, do Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center.

O documento analisa em profundidade a desigualdade de género e a prevalência da violência em Portugal, com base em microdados do Inquérito sobre Segurança no Espaço Público e Privado (ISEPP, INE 2022) e dos inquéritos europeus sobre violência de género (EU-GBV, Eurostat 2022).
Portugal avança na igualdade de género, mas a violência persiste
De acordo com o relatório, 46,8% das mulheres portuguesas já foram vítimas de algum tipo de violência ao longo da vida (42,6% para os homens). A violência na intimidade é mais frequente entre as mulheres, atingindo 22,5%, enquanto entre os homens é de 17,1%. A violência física e/ou sexual é experienciada por ambos os sexos, mas com maior gravidade e repetição entre as mulheres; 19,7% das mulheres foram vítimas, e em mais de metade dos casos os episódios repetiram-se ao longo do tempo.

A violência sexual afeta desproporcionalmente as mulheres, com 6,4% das mulheres e 2,2% dos homens a declararem ter sido vítimas. Já a violência psicológica é a forma de abuso mais comum, afetando 21,8% das mulheres e 16,8% dos homens.

O relatório evidencia que a severidade da violência é mais elevada entre as mulheres: 62,7% reportam danos físicos e 19,3% referem limitações nas atividades diárias em consequência das agressões. Entre os homens, esses valores são inferiores, o que reforça a desigualdade no impacto e nas consequências da violência.

Apesar da magnitude do fenómeno, o reporte da violência permanece limitado. Apenas 65,3% das vítimas comunicaram o sucedido, sendo que mais de 60% recorreram apenas a familiares ou amigos e cerca de 20% às autoridades. A maioria das mulheres reconhece a existência de linhas telefónicas de ajuda de associações não governamentais (84,8%), casas de abrigo (88,9%) e apoio jurídico gratuito (63,9%); para os homens, as percentagens são similares, mas ligeiramente mais baixas. Ainda assim, a prevalência de conhecimento destes diversos apoios contrasta com os baixos níveis de reporte observados em Portugal.

Insegurança e perceções
As diferenças de género também se manifestam nas perceções de segurança. Apenas 77,1% das mulheres afirmam sentir-se seguras quando andam sozinhas na rua à noite, em contraste com 89,5% dos homens. Além disso, 44% das mulheres consideram que a violência exercida por maridos ou companheiros contra mulheres é muito comum, enquanto apenas 25% dos homens partilham essa perceção. Por outro lado, apenas 10,5% das mulheres e 6,9% dos homens reconhecem a violência contra os homens por parte das mulheres ou companheiras como um fenómeno muito comum. Os dados demonstram que, embora a consciência sobre a violência contra as mulheres seja elevada, a vitimização masculina tende a ser subestimada.

Assédio e desigualdade no trabalho
A violência de género também se reflete nos contextos laborais. Em Portugal, 23,8% das mulheres afirmam ter sido vítimas de assédio persistente e 12,3% declaram ter sofrido assédio sexual no trabalho. Entre os homens, esses valores são de 17,3% e 5,2%, respetivamente. Mais de metade das mulheres vítimas de assédio sexual no trabalho descrevem episódios repetidos ao longo do tempo.

Portugal no contexto europeu
No quadro europeu, Portugal apresenta níveis de prevalência de violência mais baixos do que a média da União Europeia. Em Portugal, cerca de 22,5% das mulheres foram vítimas de violência em contexto de intimidade (31,8% na UE27) e 19,7% foram vítimas de violência física e/ou sexual (30,7% na UE27).
Contudo, em Portugal, a taxa de denúncia é inferior à da UE27 (65,3% vs. 68,2%), entre as mulheres vítimas de violência física e/ou sexual. Os dados sugerem que o estigma social e a desconfiança institucional continuam a ser obstáculos à denúncia e à proteção eficaz das vítimas.
Conclui-se que os progressos alcançados na igualdade formal entre homens e mulheres não eliminam as desigualdades substanciais que persistem no quotidiano. A violência de género é simultaneamente uma causa e uma consequência dessas desigualdades e exige uma resposta pública articulada, que combine educação, prevenção, apoio social e justiça.
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Iniciativa para a Equidade Social
A Iniciativa para a Equidade Social é uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI, e a Nova SBE, que visa impulsionar o setor social em Portugal com uma visão de longo prazo. Traçando um retrato do setor social em Portugal e desenvolvendo programas de investigação e capacitação para apoiar organizações sociais, a iniciativa envolve oito projetos e duas cátedras.
 
Sobre a Fundação ”la Caixa”
A Fundação ”la Caixa” iniciou em 2018 a sua implantação em Portugal, consequência da entrada do BPI no grupo CaixaBank. Em 2025, destina 50 milhões de euros a projetos sociais, de investigação, educativos e de divulgação cultural e científica.
 
Sobre o Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center
O Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center dedica-se à aplicação de ferramentas fundamentais de economia em questões relevantes do mundo empresarial e políticas públicas. Tem como objetivo produzir avaliações conceptuais e quantitativas relevantes para organizações, empresas e público em geral. O Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center está alicerçado em investigação mundial de topo e no corpo docente da Nova SBE, bem como num conjunto de professores afiliados de instituições de renome. As atividades do centro são desenvolvidas sob a mentoria intelectual de um comité científico de reputação mundial.
 
Sobre a Nova SBE
A Nova SBE é a mais prestigiada business school em Portugal e uma das principais business schools da Europa. É a faculdade de ciências económicas, financeiras e de gestão da Universidade NOVA de Lisboa. O atual Diretor é o Prof. Pedro Oliveira (PhD, University of North Carolina at Chapel Hill). A Nova SBE é membro do CEMS desde dezembro de 2007 e tem atribuição Triple Crown em todo o mundo, o que implica a acreditação pela EQUIS, AMBA e AACSB. Foi a primeira business school portuguesa a adquirir acreditações internacionais e reconhecimento de renome mundial no ensino superior. A visão internacional da Nova SBE também se reflete na adoção do inglês como o principal idioma de ensino. A grande maioria dos cursos de licenciatura e todos os programas de mestrado, MBA e PhD são lecionados em inglês.

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