Pele, linha e tinta: carros ou livros?

  • Encadernar um livro e desenhar um carro, dois processos criativos unidos por uma paixão pelo detalhe
  • Os artesãos de ambos os mundos moldam os mesmos materiais com as suas mãos
  • Um quilómetro de linha para um carro, um metro para um romance
 
Martorell,22/04/2019.  Encadernar um livro e desenhar um carro, a olho nu, têm pouco em comum. Mas ao criar um carro, há momentos em que a tecnologia de ponta dá lugar a mãos, tesouras e máquinas de costura. E é aqui que ambos os processos se encontram. A busca constante pela perfeição nas suas peças e a paciência são segredos do artesanato que partilham, embora numa sirvam para dar forma a uma peça de mais de uma tonelada e, na outra, a uma peça de apenas meio quilo. É assim que estes dois mundos, aparentemente diferentes, se unem.
 
Tudo começa no papel: as ideias são expressas no papel sob a forma de desenhos ou palavras. O design de um carro nasce de dezenas de esboços feitos à mão nos quais são traçados os volumes naturais, incluindo a sensação de movimento. Uma folha é também o ponto de partida para a encadernadora Geòrgia Olivé, da oficina artesanal Relligats Olivé. O seu trabalho, explica, "é algo mágico, é dar vida a um livro". A primeira coisa que ela faz é construir pequenos cadernos, um após o outro, com a ajuda de uma ferramenta chamada máquina de dobrar. Quando já os tem todos, deixa-os com um peso durante horas.
 
A pele: O couro é um dos materiais mais valiosos pela sua qualidade para o fabrico de estofos. "Prefiro porque é natural", afirma Nick Allen, alfaiate da SEAT. "Basta tocar em cada peça para sentir a sua qualidade e saber como vai funcionar na máquina de costura", continua. Geòrgia Olivé tem 80 rolos de diferentes tecidos na sua oficina para cobrir as capas.  Também para ela, o couro, pelo cheiro, pelo toque e pelas possibilidades de gravação, é o mais adequado para criar uma peça de alta qualidade.
 
Sem perder o ponto: As páginas agrupadas em cadernos são costuradas à máquina, mas os encadernadores também restauram trabalhos centenários e estes são tão delicados que só podem ser costurados à mão. "Com estas peças é preciso ter muito cuidado para que o papel não rasgue", diz Geòrgia Olivé. Um metro de linha é a espinha dorsal de um livro, um quilómetro é a de um carro. No atelier da SEAT há 250 bobinas de 100 cores diferentes. Para os volantes é usada uma agulha curva e a costura alemã, que é a que mostra mais linha a olho nu.
 
Um toque de cor: Encontrar a tonalidade exata que defina a personalidade de uma criação não é fácil. Mais de 1.000 litros de tinta são destinados à tonalidade de um carro novo.  "Com a mistura de 50 pigmentos diferentes e partículas metálicas, foram feitas quase 100 variações da mesma cor para ver qual tonalidade fica melhor", explica Carol Gómez do departamento de Color&Trim da SEAT. Para encontrar um livro é preciso conhecer o seu interior.  Assim, para uma obra de literatura clássica, o bordeaux e as gravuras em ouro são uma aposta certa, enquanto que, para um romance leve, os tons vivos são mais adequados. A gama de azuis é ideal para temas marinhos, e os verdes ideais para qualquer texto sobre a natureza.
Tinta, cola e nem uma única partícula: A poeira é um inimigo comum em ambos os mundos. Pequenas partículas que podem destruir todo o processo criativo. Os carros são pintados a uma temperatura entre os 21 e 25 graus. As cabines têm um sistema de ventilação semelhante ao de uma sala de cirurgia para evitar a entrada de poeira ao aplicar as sete camadas necessárias. Para restaurar um livro, Geòrgia Olivé dedica primeiro várias horas a libertá-lo do pó. Fá-lo com um pincel que passa suavemente e sem pressa por cada uma das páginas. A ventilação e a secagem também são fatores chave, especialmente após a aplicação da cola para a primeira e última página em branco e o tecido que une as páginas à cobertura. "A humidade pode afetar o papel ou danificar as tampas de cartão. E não há como voltar atrás", afirma Geòrgia Olivé. O processo de secagem pode levar até 24 horas para cada etapa. Nada quando se trata de resgatar um livro do esquecimento.  
 
Dois mundos, três valores partilhados

Paciência: Cada espessura, antiguidade, tipo de papel ou tecido tem o seu tempo. "Tens de aprender a esperar pelos livros", adverte Geòrgia Olivé. O lema de Nick Allen, alfaiate da SEAT, é "não te apresses". Não importa quantas horas se dedica a uma encadernação ou ao design de um estofo de carro, o que importa é que o resultado seja perfeito.
Experiência: Geòrgia Olivé cresceu na oficina de encadernação do pai. Brincava entre papel, tecidos e ferramentas de encadernação e acabou por fazer dos jogos a sua profissão. Nick Allen tem 35 anos de experiência no setor. "Tenho criado interiores de carros com as minhas mãos desde os 16 anos". E é precisamente por causa dessa experiência que Olivé sabe, sem nenhum termómetro, a temperatura exata a que o compositor deve estar, a ferramenta que usa para gravar um título; ou então que Allen sabe se deve carregar mais ou menos no pedal da máquina de costura dependendo do material.  
Sensibilidade: Siga cada ponto com os dedos para verificar se a costura no volante ou entre páginas está perfeita. Cheirar a pele ou a linha, aquele aroma característico dos volumes antigos... É assim que os grandes artesãos fazem a diferença. "Já se apaixonou por um livro?", pergunta Geòrgia Olivé. É o que lhe acontece quando ela arranja ou cria um, a tal ponto que "quando termino e a peça sai da oficina, sinto falta dela porque estabeleci uma ligação especial com ela", afirma.
 

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